O que fazer quando a oração se torna rotina vazia
Há uma altura em que rezas e não sentes nada, as palavras saem ocas e ficas com a ideia de que te estás a afastar de Deus ou a fazer algo errado. Este texto mostra-te o que a Igreja e os santos dizem sobre esses tempos de secura, e porque é que continuar a rezar sem sentir é uma das formas mais altas de fé, e não um fracasso.
Houve uma noite no Horto das Oliveiras em que Jesus rezou com a alma cheia de angústia, e uma tarde na cruz em que fez suas as palavras de um salmo de desamparo, «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». Foi o próprio Filho de Deus a rezar para um céu que, naquele momento, parecia calado. Se há uma experiência que a fé conhece por dentro, é a de rezar e não receber nada de volta.
Rezas as mesmas palavras e não sentes nada do outro lado
Tu conheces isto de outra maneira. Ajoelhas-te à noite, rezas as orações de sempre, e não sentes nada. As palavras saem, mas soam ocas, e a certa altura apanhas-te a pensar noutra coisa, na lista de amanhã, no que ficou por fazer. E a conclusão que aparece é dura, se calhar estás a afastar-te de Deus, se calhar rezas mal, se calhar já não tens a fé que tinhas. O silêncio da oração transforma-se em prova contra ti.
Quantas vezes já saíste da oração a sentir que ela não contou, só porque não sentiste nada enquanto rezavas?
A secura na oração tem um nome antigo, e não quer dizer que falhaste
A isto a tradição da Igreja chama aridez, e não é uma novidade nem um defeito teu. O Catecismo descreve a secura como o momento em que o coração reza sem gosto por pensamentos, memórias e sentimentos, mesmo espirituais, e diz que esse é precisamente o momento da fé pura, que permanece fiel junto de Jesus na sua agonia e no seu túmulo. Continuar a rezar sem sentir é, muitas vezes, a forma mais nua de fé que existe, porque ficas por Ele e não pelo que Ele te dá.
E se, no meio desse vazio, a tua fé estivesse afinal a fazer o seu trabalho mais silencioso?
Santa Teresinha rezava assim, e chamava-lhe amar mesmo sem sentir
Santa Teresinha do Menino Jesus conheceu bem estes tempos. Escreveu que, quando estava seca e incapaz de rezar, recitava devagar um Pai-Nosso ou uma Avé-Maria, e que isso bastava para alimentar a alma. Quando o fogo do amor parecia apagado, repetia simplesmente que amava, e era esse gesto que o mantinha aceso. Fazia o pouco com fidelidade, sem esperar sentir mais. É isto que a via pequena ensina, que a santidade se joga em continuares, mesmo quando não sentes nada.
Podes voltar à oração mais simples, e deixá-la bastar
Da próxima vez que a oração te parecer vazia, não precisas de a corrigir nem de te obrigar a sentir mais. Podes rezar devagar um Pai-Nosso, uma palavra de cada vez, e deixar que baste. Podes continuar a ir, mesmo sem levar nada e sem trazer nada. O que Deus recebe é teres aparecido, mesmo de mãos vazias.
O mesmo céu que pareceu calado a Jesus no Horto respondeu-lhe ao terceiro dia. Também o teu silêncio na oração pode ser o lugar onde a fé aprende a segurar-se sem apoio, à espera de uma resposta que chega no seu tempo.
Qual é a oração simples a que podes voltar esta noite, sem lhe pedir que te faça sentir nada?
Se quiseres um caminho para rezar assim, sem depender do que sentes, o O Lar como Pequena-Via é um ponto de partida simples, e é gratuito.