Maria não disse «não é bem assim»
Maria recebeu palavras grandes sobre si e não as recusou. Uma leitura sobre a forma como uma mulher se vê, a partir do Magnificat.
Lembra-te das últimas vezes em que alguém te elogiou.
Alguém te disse que a tua casa era bonita, ou acolhedora, e tu respondeste quase sem pensar que estava desarrumada. Alguém te agradeceu o jantar e tu explicaste que tinha sido feito à pressa, mesmo depois de teres passado horas na cozinha. Alguém te disse que eras uma boa mãe e tu riste-te, porque, se soubessem como tinha corrido aquela semana, talvez não dissessem o mesmo.
É um gesto tão habitual que quase passa despercebido. Alguém vê uma coisa boa em nós e nós sentimos imediatamente necessidade de acrescentar aquilo que essa pessoa não viu. A desarrumação. A pressa. O momento em que perdemos a paciência.
Como se fosse preciso corrigir o elogio antes que alguém fique com uma ideia demasiado boa de nós.
Chamamos humildade a este gesto, mas nem sempre é humildade. Muitas vezes é apenas dificuldade em acreditar numa coisa boa quando é dita sobre nós.
Maria não corrigiu a verdade dita sobre ela
Na Visitação, Isabel vê Maria chegar e proclama-a bendita entre todas as mulheres. Chama-lhe Mãe do seu Senhor e reconhece nela a mulher que acreditou.
Maria não se encolhe, nem explica porque é que Isabel está a exagerar. Não por falta de humildade, mas porque não precisa de diminuir aquilo que Isabel reconheceu nela para provar que é humilde.
Recebe o que Isabel lhe diz e responde com uma frase ainda mais difícil para nós: «Todas as gerações me chamarão bem-aventurada.»
A frase poderia soar estranha se não soubéssemos o que Maria diz imediatamente a seguir: «porque o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas».
É aí que está a diferença.
Maria consegue reconhecer aquilo que há de grande nela porque sabe de onde veio. Não transforma a graça em mérito próprio, mas também não transforma a humildade na obrigação de negar o bem que recebeu.
Não toma para si aquilo que Deus fez, mas também não o apaga. Na sua resposta, que se torna oração, Maria mostra-nos porquê: Deus olhou para a humildade da sua serva.
Deus olhou primeiro
Antes de Isabel a chamar bem-aventurada, houve um olhar de Deus.
Foi Ele que começou. É isso que Maria canta.
O Magnificat não é uma lista das qualidades que a tornaram merecedora. É o relato daquilo que Deus fez nela. A iniciativa foi de Deus. Maria reconheceu-a e respondeu-lhe.
Talvez seja precisamente aqui que a nossa maneira de nos vermos começa a afastar-se da dela.
Nós fazemos contas. Procuramos provas. Revisitamos aquilo que correu mal antes de aceitar aquilo que correu bem. Quando alguém diz alguma coisa boa sobre nós, a cabeça começa imediatamente a procurar as razões pelas quais aquela pessoa está errada.
Como se uma semana difícil pudesse anular a verdade de que és uma boa mãe. Como se um jantar improvisado deixasse de ter sido cuidado por não ter ficado como imaginavas. Como se uma casa tivesse de estar impecável para poder ser acolhedora.
A balança pesa sempre para o mesmo lado
Tu já sabes que fazes muito. A tua semana prova-o. O teu cansaço também.
Mas, no final do dia, quando pensas em como correu, é sobretudo aquilo que falhou que te vem primeiro à cabeça. Fazes um inventário mental e a balança pesa quase sempre do lado do que não foste, do que não deste, do que não terminaste.
Lembras-te mais depressa da conversa em que foste impaciente do que das dez em que estiveste disponível. Vês a roupa que ficou por arrumar antes de veres a casa onde alguém se sentiu bem. Ficas presa ao momento em que levantaste a voz e esqueces todos os outros em que te baixaste para ouvir.
E aqui está um problema que tantas de nós conhecemos bem. Quando a balança está sempre em saldo negativo, um elogio começa a soar falso. Não merecido. Se alguém diz uma coisa boa sobre ti, pensas que está apenas a ser simpático ou que não sabe aquilo que tu sabes.
Não é necessariamente o que fazes que não chega. É a medida pela qual o avalias.
Medimo-nos por uma ideia de perfeição em que uma falha parece ter força para apagar tudo o que houve de bom.
Mas ser uma boa mãe não significa nunca perder a paciência. Ter uma casa acolhedora não significa que não haja coisas espalhadas. Ser generosa não significa nunca estar cansada.
A verdade sobre quem és não desaparece cada vez que aparece uma versão tua de que gostas menos.
Maria também não precisou de diminuir aquilo que Deus tinha feito nela para reconhecer a sua pequenez. Sabia que era pequena diante de Deus e sabia, ao mesmo tempo, que Ele tinha feito nela coisas grandes.
As duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.
Deus não está à espera de outra versão de ti
Quando passamos tanto tempo a olhar para aquilo que ainda nos falta, não se torna apenas difícil acreditar nos elogios dos outros. Torna-se difícil reconhecer o bem que Deus já está a fazer na vida que temos.
Ficamos à espera de ser mais pacientes, mais organizadas, menos cansadas, menos impulsivas. Como se aquilo que damos hoje tivesse sempre de ser descontado por causa daquilo que ainda não conseguimos dar.
Mas Deus não faz as mesmas contas que nós. Não espera que desapareçam os teus limites para reconhecer o bem que já existe e a graça que já está a agir em ti. Deus não espera uma versão perfeita de ti antes de olhar para ti.
Ele olha para ti hoje.
Na forma como amas o teu marido, educas os teus filhos, trabalhas, rezas, recebes pessoas à mesa e voltas a começar depois de um dia mau. No pedido de desculpa que fizeste depois de perder a paciência. No jantar que preparaste cansada. Na conversa em que conseguiste ficar mais cinco minutos quando já querias estar em silêncio.
Nenhuma destas coisas precisa de ser perfeita para poder conter alguma coisa boa.
Reconhecer isso não é fazer de conta que as falhas não existem. É deixar de lhes dar o poder de apagar tudo o resto.
Não há outra mulher escondida dentro de ti que Deus esteja à espera de encontrar.
De onde vem o teu valor
No dia do teu Batismo tornaste-te verdadeiramente filha de Deus.
Isto não é apenas uma maneira bonita de dizer que tens valor. E talvez consigas perceber melhor o peso destas palavras quando pensas nos teus próprios filhos.
Amas os teus filhos apenas quando fazem tudo bem? O valor que têm aos teus olhos aumenta nos dias em que acertam e diminui quando falham?
Não.
Tu vês os teus filhos pelo que são antes de fazeres contas ao que fizeram. E, no entanto, contigo própria, fazes tantas vezes o contrário.
É por isso que o teu valor não pode subir e descer ao ritmo da balança que fazes no fim de cada dia.
Não depende de seres indispensável no casamento, nem de seres sempre aquela que se lembra de tudo. Não aumenta nos dias em que tens uma paciência infinita com os teus filhos e não diminui quando os teus limites ficam demasiado visíveis.
O trabalho que fazes, dentro ou fora de casa, tem dignidade e pode ser uma verdadeira forma de servir. Mas também não tem autoridade para decidir quanto vales.
São lugares onde amas, serves, falhas, aprendes e recomeças. Lugares onde aquilo que recebeste de Deus pode tornar-se dom para outra pessoa.
Nenhum deles te dá aquilo que já recebeste primeiro.
E talvez seja aqui que se percebe porque custa tanto receber um elogio.
Se o teu valor depende do saldo do dia, cada palavra boa precisa primeiro de passar por uma espécie de prova. «Será mesmo verdade? Mesmo depois daquilo que fiz? Mesmo sabendo o que ainda me falta?»
Mas um elogio não precisa de significar que fizeste tudo bem.
Pode simplesmente estar a reconhecer uma coisa boa que também é verdadeira.
A oração que a Igreja põe no fim do dia
A resposta de Maria tornou-se também oração da Igreja. Todos os dias, nas Vésperas, rezamos o Magnificat.
E há qualquer coisa de muito bonita em estas palavras aparecerem precisamente quando o dia começa a chegar ao fim. Porque é também nessa altura que tantas vezes fazemos a nossa própria contabilidade.
O que ficou por fazer. Aquilo que dissemos mal. A paciência que faltou. A tarefa que passará para amanhã.
Maria oferece-te outra maneira de olhar para o teu dia. Em vez de começar pelo que faltou, começa pelo que Deus fez.
Não é fingir que tudo correu bem. Maria não precisa de negar a sua pequenez para proclamar as maravilhas de Deus. E nós também não precisamos de escolher entre reconhecer aquilo em que falhámos e reconhecer o bem que Deus fez em nós e através de nós.
Volta agora àquelas situações do início.
À pessoa que entrou em tua casa e disse que se sentia bem ali. Ao jantar pelo qual alguém te agradeceu e que tu despachaste com um «foi feito à pressa». À vez em que te disseram que eras uma boa mãe e sentiste imediatamente necessidade de explicar porque é que não era bem assim.
Talvez aquelas pessoas não estivessem enganadas.
Talvez tenham visto uma coisa verdadeira que tu, ocupada a fazer contas, não estavas a conseguir ver.
Maria ensina-nos outra forma de receber esse olhar. Não agarrá-lo como mérito nosso, mas também não o apagar. Deixar que uma coisa boa possa ser verdadeira sobre nós e reconhecer, como ela reconheceu, de onde veio.
A humildade não é responder «não é bem assim». É reconhecer o bem sem o transformar em mérito nosso, mas também sem o apagar.
Conta-nos nos comentários qual foi o último elogio que recusaste. Escreve apenas a frase que te disseram, sem a corrigir.