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Estás de férias mas a tua cabeça já regressou a setembro

Estás de férias mas a tua cabeça já regressou a setembro

Ainda é agosto, mas a tua cabeça já está no regresso às aulas. A diferença entre preparar setembro e começar a vivê-lo antes de tempo, à luz de Mateus 6.


São dez da manhã de um dia qualquer de agosto. Os miúdos ainda estão de pijama, há areia no chão da entrada que ninguém varreu e a toalha de praia de ontem continua pendurada onde a deixaste.

Está tudo bem. O verão está exatamente onde devia estar.

E, no entanto, enquanto levantas as coisas do pequeno-almoço, a tua cabeça já está noutro sítio. A lista do material. Os horários que ainda não saíram. O casaco do ano passado que já não vai servir. Quem fica com quem à quarta-feira à tarde.

O corpo está em agosto. A cabeça já entrou em setembro.

Preparar não é viver à frente

Há uma parte da vida familiar que só funciona porque alguém pensou nela primeiro.

As mochilas aparecem prontas. As inscrições são feitas dentro do prazo. Há ténis que servem quando a escola começa porque alguém reparou, semanas antes, que os antigos estavam pequenos.

Antecipar faz parte de cuidar de uma casa. E, para algumas de nós, até sabe bem.

Eu sou uma delas. Gosto do regresso às aulas. Gosto do material escolar novo, de olhar para as rotinas antes de começarem, de perceber o que muda este ano, quem vai buscar quem e a que horas. Preparar setembro não me pesa. Dá-me gosto.

Mas preparar setembro e começar a vivê-lo em agosto são duas coisas diferentes.

A diferença aparece quando já não estás a tratar de alguma coisa concreta. Estás apenas a tentar resolver, dentro da cabeça, tudo aquilo que pode vir a acontecer.

Começa com uma lista feita no telemóvel quando já devias estar a dormir. Continua com uma conversa sobre atividades no meio de um jantar de verão. E, a certa altura, estás sentada na praia com um livro no colo e percebes que leste três vezes a mesma linha porque estás a fazer contas aos horários.

O problema ainda nem aconteceu.

Mas tu já estás cansada dele.

Setembro começa a ocupar agosto

Há um cansaço que não vem da quantidade de coisas que fizeste. Vem de estares constantemente um pouco à frente do lugar onde estás.

O corpo está numa manhã sem horários e a cabeça já está numa quarta-feira de outubro. Os miúdos estão a brincar e tu estás a tentar perceber como vais conciliar duas atividades que ainda nem têm horário confirmado.

E nenhuma dessas contas faz setembro chegar mais organizado.

Só faz agosto ficar mais pequeno.

É aqui que a frase de Jesus em Mateus ganha outro peso:

«Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.» (Mateus 6,34)

Jesus não está a pedir imprevidência.

São Tomás de Aquino distingue a previsão responsável da preocupação excessiva com o futuro. São João Crisóstomo lê esta passagem na mesma direção: o dia de hoje já traz aquilo que nos cabe viver. Acrescentar-lhe antecipadamente o peso de amanhã não torna amanhã mais leve.

A questão não é deixares de preparar.

É perceberes o que pertence realmente a hoje.

O Evangelho deixa-te fazer a lista. Deixa-te comprar os cadernos, confirmar os horários e experimentar os sapatos.

O que não te pede é que carregues agosto com todos os dias de setembro ao mesmo tempo.

A prudência sabe quando parar

A prudência pergunta: o que posso fazer hoje?

Comprar o material que já sei que é preciso. Marcar uma consulta. Confirmar uma inscrição. Ver o que ainda serve.

Fazes. Fica feito. Segues com o dia.

A preocupação faz outra pergunta: como é que garanto que nada vai correr mal?

E essa pergunta nunca fica respondida.

Porque pode haver uma alteração de horário. Uma atividade pode mudar de dia. Um filho pode não gostar daquilo que parecia decidido. A vida real vai continuar a mexer-se depois de fechares a lista.

Por isso há uma forma simples de perceber onde estás.

Se existe uma ação concreta que podes fazer agora, faz.

Se estás apenas a repetir a mesma conversa dentro da cabeça, não estás a preparar setembro. Estás a vivê-lo antes de ele chegar.

E setembro ainda terá tempo de ser setembro.

Dá-lhe um lugar, não o mês inteiro

Talvez a solução não seja pensares menos no regresso.

Talvez seja dares-lhe um lugar.

Uma tarde para experimentar roupa. Um momento para encomendar o material. Uma conversa para organizar os horários quando eles existirem. Uma página onde apontas aquilo que te vem à cabeça para não teres de continuar a segurá-lo mentalmente.

Aquilo que tem lugar deixa de precisar de aparecer a toda a hora.

Os horários vão sair quando saírem. A conversa sobre quem faz o quê à quarta-feira será muito mais fácil quando houver informação real em cima da mesa. E os problemas que setembro trouxer serão resolvidos com a mesma competência com que tens resolvido todos os outros.

Não precisas de os ensaiar hoje.

Porque esta manhã ainda é agosto.

A toalha de praia continua pendurada onde a deixaste. Os miúdos ainda estão de pijama. Há areia no chão da entrada.

Setembro terá o seu lugar.

Não precisa de ter esta manhã.