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Quando descansar parece errado

Quando descansar parece errado

Passar agosto em casa tem uma dificuldade própria: tudo o que está por fazer está à vista o dia inteiro. Sobre descansar sem culpa quando a casa é a lista.

São quatro da tarde e estás sentada. Os estores estão meio corridos para a casa não aquecer, os filhos brincam a poucos metros de ti, no chão fresco da sala, e, neste momento exato, o dia não te pede nada. O corpo parou, talvez pela primeira vez em meses.

A cabeça não.

Enquanto olhas para eles, a lista começa a correr por dentro sem que a tenhas chamado. O material escolar que ainda não compraste, a gaveta da roupa que já não serve a nenhum deles, o armário que querias arrumar antes de setembro, a mensagem por responder, o jantar. E setembro ali, a três semanas de distância, com aquela sensação de que este tempo devia estar a servir para adiantar alguma coisa.

Ao fim de vinte minutos, levantas-te. Ninguém te chamou. Levantaste-te porque estar parada tinha começado a incomodar mais do que o descanso aliviava.

A culpa não vem de fora

Repara em quem te pediu para te levantares. O teu marido não pediu, os teus filhos não pediram e ninguém à tua volta te disse que estavas a falhar. Tens autorização de toda a gente, menos de ti.

Por baixo disto há uma ideia silenciosa, que raramente dizemos em voz alta porque, muitas vezes, nem sabemos que a temos:

Valho pelo que faço.

Enquanto a lista avança, o valor parece manter-se. Quando a lista pára, parece que o valor também diminui. É por isso que descansar te sabe tantas vezes a falha, e não a alívio.

Esta medida não nasceu contigo. Foi-te ensinada devagar, ao longo dos anos, por um mundo que aprendeu a contar as pessoas pelo que produzem, resolvem e entregam, e instalou-se com tanta discrição que hoje se confunde com responsabilidade. Mas a culpa que sentes quando te sentas raramente é sinal de preguiça. Costuma ser sinal do contrário: de uma mulher que carrega muito e nunca aprendeu verdadeiramente a pousar.

E há uma dificuldade acrescida em passar agosto em casa. Tudo o que está por fazer está à tua vista o dia inteiro. Não há distância nenhuma entre o descanso e a lista, porque a lista é a casa onde estás sentada.

Descansar sem culpa não começa numa melhor organização do tempo. Começa quando voltas a saber de onde vem o teu valor.

Mulher sentada numa cadeira junto à varanda, com um copo de água nas mãos, num momento de pausa em casa

Onde Elias reconheceu Deus

Na primeira leitura deste domingo, Elias está no monte Horeb, à espera do Senhor. Antes de chegar ali vinha de uma longa caminhada, cansado e sem forças, e Deus tinha-o alimentado, deixado dormir e preparado para continuar.

Já no monte, Elias vê passar uma rajada de vento tão forte que fendia as montanhas. Depois, um terramoto. Depois, o fogo.

Mas o Senhor não estava em nenhum deles.

Só depois se ouve uma ligeira brisa, e é aí que Elias cobre o rosto e reconhece a presença de Deus. O texto não diz que Deus desaparece quando a vida faz barulho. Diz-nos onde Elias conseguiu reconhecê-Lo, e essa distinção importa, porque a tua vida raramente é silenciosa.

Talvez tenhas aprendido a procurar o teu valor precisamente nos lugares mais ruidosos: no movimento, nas tarefas concluídas, nos problemas resolvidos, na sensação de seres sempre necessária. Tudo isso parece importante porque se vê, porque deixa resultado, porque pode ser riscado de uma lista.

O descanso é mais discreto. Não mostra o que fizeste, não produz nada que possas apresentar ao fim do dia e obriga-te a permanecer num lugar onde não tens de provar nada a ninguém. E talvez seja por isso que custa tanto. Quando o ruído abranda, já não consegues esconder-te atrás daquilo que fazes.

Ficas apenas tu.

E Deus, que não te ama mais nos dias em que consegues fazer tudo, nem menos naqueles em que precisas de parar. O teu valor não é uma coisa que constróis todas as manhãs e perdes quando páras. Recebeste-o de Deus no dia em que foste batizada, e não depende do estado da tua casa.

O descanso não é o prémio de quem terminou tudo

Talvez estejas à espera de um momento que nunca chega. O momento em que a roupa está toda arrumada, a casa está em ordem, as mensagens estão respondidas, as compras de setembro estão feitas, o jantar está pensado e ninguém precisa de nada. Só depois descansarias.

Mas as listas domésticas não acabam. Há sempre mais uma máquina para pôr, uma divisão por arrumar, uma decisão por tomar, alguma coisa que o mês seguinte vai exigir. Se o descanso fosse o prémio de quem terminou tudo, ninguém descansaria.

No princípio do Génesis, Deus cria durante seis dias e, ao sétimo, descansa. Não porque tenha ficado cansado, mas porque há um ritmo inscrito na própria criação: trabalho e repouso, fazer e receber, cuidar e deixar-se cuidar. Mais tarde, no Sinai, esse ritmo torna-se mandamento. Guardar o dia de descanso está inscrito nos Dez Mandamentos, ao lado de não matar e de não roubar. Não é uma sugestão para os dias em que sobra tempo, é uma coisa que Deus nos pede.

E pede-a a teu favor. O mandamento do descanso não veio para te dar mais uma coisa em que possas falhar, veio porque Deus conhece o corpo que criou e sabe que uma vida sem pausa se estraga.

Isto merece ser lido devagar, porque muda a forma como te sentas. Quando páras, não estás a arranjar uma exceção para ti. Estás a viver uma coisa que te foi ordenada.

Às quatro da tarde de agosto, com a casa ainda por arrumar e setembro à porta, sentares-te não significa que deixaste de cuidar. Significa apenas que também tu precisas de ser cuidada.

Quando olhas mais para o vento

No Evangelho deste domingo, os discípulos estão num barco açoitado pelas ondas. Jesus aproxima-Se por cima do mar e Pedro pede-Lhe que o mande ir ao Seu encontro. Pedro desce do barco e chega a caminhar sobre as águas, mas depois sente a violência do vento, desvia o olhar e começa a afundar-se.

É fácil viver as férias assim, com o corpo finalmente fora da rotina e os olhos ainda presos ao vento. Setembro aproxima-se, a casa está desarrumada desde a primeira semana, os horários desapareceram, os filhos estão em casa o dia inteiro e há coisas por comprar, decisões por tomar e rotinas por preparar. E, de repente, já não estás no dia que te foi dado. Estás dentro de tudo aquilo que ainda pode correr mal.

Pedro não se salva por conseguir dominar o mar. Salva-se quando grita «Salva-me, Senhor» e deixa que Jesus lhe estenda a mão.

Talvez descansar sem culpa comece aqui. Não em conseguires esvaziar a cabeça, nem em terminares primeiro todas as tarefas, nem em criares umas férias perfeitas, mas em voltares o olhar, em reconheceres o vento sem lhe entregares toda a tua atenção e em confiares que não te compete sustentar tudo sozinha.

Um gesto pequeno pode trazer-te de volta

Quando decidimos descansar melhor, é fácil transformar o descanso em mais uma coisa a cumprir. Marcamos uma hora, criamos uma rotina, esperamos um resultado, e ao fim de três dias já sentimos que falhámos também nisso.

Por isso, não acrescentes nada ao teu dia. Escolhe uma coisa que já fazes e usa-a para regressar: cortar a fruta do lanche, abrir a janela de manhã e deixar entrar o ar antes do calor, dobrar uma toalha, pôr a mesa, regar uma planta.

Uma coisa só. Faz essa coisa sem correr imediatamente para a seguinte, reconhece que Deus está ali, oferece-Lhe o gesto e deixa que aqueles dois minutos te devolvam ao lugar onde os teus pés realmente estão. A tua lista continua igual. Muda o sítio de onde a fazes.

Foi este o caminho de Santa Teresa do Menino Jesus. Ela não procurou feitos extraordinários, descobriu que a santidade não dependia da grandeza das suas obras, mas da confiança com que se deixava amar por Deus e do amor que colocava nas coisas mais pequenas. A pequena via não é fazer pouco, é deixar de medir o amor pelo tamanho daquilo que conseguimos fazer.

Se quiseres experimentar este caminho durante estas semanas, preparámos O Lar como Pequena-Via: sete gestos domésticos, um por dia, inspirados em Santa Teresinha. É gratuito e chega-te por email. Não te pede tempo extra, convida-te apenas a encontrar Deus naquilo que já faz parte dos teus dias.

O verão que ainda tens

Ainda tens semanas de agosto pela frente. Podes atravessá-las a tentar adiantar setembro, com o corpo numa cadeira e a cabeça sempre algumas semanas à frente, e chegar ao primeiro dia de aulas com a sensação estranha de não teres descansado nem terminado aquilo que querias. Ou podes regressar ao lugar onde estás.

A presença não se guarda para depois e não se acumula para setembro. Só pode ser vivida no dia que tens agora, entre os brinquedos espalhados desde manhã, os filhos a brincar no chão, o jantar ainda por decidir e as coisas que continuam por fazer.

Não tens de aproveitar cada minuto das férias, nem de criar memórias extraordinárias todos os dias, nem de terminar agosto com a casa pronta para setembro. O teu valor não está na lista e o vento não precisa de parar para voltares a olhar para Jesus.

Senta-te outra vez.