Talitha Cumi: o convite para te levantares, todos os dias
Uma rotina que só funciona quando tudo corre bem não é uma rotina — é um luxo. Como construir estrutura que aguenta a tempestade.
Há dias em que parece que estamos apenas a sobreviver. A roupa continua por dobrar, os pratos acumulam-se, o trabalho pede mais uma hora e os filhos chamam ao mesmo tempo. A oração fica para depois, e sem dar por isso começamos a acreditar que a vida espiritual acontece noutro lugar, quando finalmente houver silêncio, tempo ou disposição.
Mas o Evangelho conta outra história.
Jairo pediu a Jesus que salvasse a filha, e a resposta chegou tarde demais
No capítulo 5 de Marcos encontramos Jairo, um chefe da sinagoga. A filha, de doze anos, está gravemente doente, e ele corre até Jesus com um único pedido: que a salve. Enquanto caminham, chega a notícia que ninguém queria ouvir. É tarde demais, a menina morreu.
Jesus olha para Jairo e responde apenas isto:
Não temas. Crê somente.
Quando chegam a casa, o ambiente já é de luto. Há choro, confusão e pessoas convencidas de que já não há nada a fazer. Jesus entra apenas com os pais da menina e três discípulos, aproxima-se da cama, pega-lhe na mão e pronuncia duas palavras que Marcos conserva na língua original:
Talitha Cumi. Levanta-te, menina.
E ela levantou-se. Começou a andar, como se a vida tivesse regressado ao seu lugar.
O milagre não terminou ali, terminou à mesa
O detalhe mais surpreendente surge logo a seguir. Jesus pede que lhe deem de comer, um pedido quase estranho depois de um milagre tão extraordinário. Mas talvez seja precisamente aí que tudo ganha sentido.
Jesus não a ressuscitou para ficar parada a contemplar o que lhe aconteceu. Ressuscitou-a para voltar à mesa, para voltar à vida, para voltar ao quotidiano. Porque os milagres de Deus nunca terminam no extraordinário, querem sempre transformar o ordinário. 
Esperamos sentir Deus só nos grandes momentos, e a vida acontece nos pequenos
Talvez seja aqui que muitas de nós nos perdemos. Esperamos sentir Deus apenas nos grandes momentos, numa missa que nos toca profundamente, num retiro, numa oração que finalmente parece diferente. Entretanto, a maior parte da vida acontece longe desses momentos: na cozinha, no escritório, no trânsito, enquanto respondemos a mensagens, fazemos o jantar ou dobramos roupa.
E, sem querer, começamos a viver como se Deus estivesse apenas nos momentos especiais. Mas Talitha Cumi mostra exatamente o contrário. Jesus devolve a menina àquilo que parecia menos espiritual de tudo: uma refeição, uma casa, uma família, uma vida normal. Talvez porque seja precisamente aí que a santidade começa.
O sal da terra e o nome que carregamos
Há outra passagem do Evangelho que ajuda a perceber isto. No Sermão da Montanha, Jesus diz:
Vós sois o sal da terra.
Não estava a falar para pessoas extraordinárias. Falava para homens e mulheres comuns, com trabalho, preocupações, contas para pagar e famílias para cuidar. O sal nunca procura chamar a atenção, mistura-se, desaparece, e é exatamente assim que transforma tudo o resto.
Foi desta imagem que nasceu o nome Salt n' Paper. Não porque a fé deva ficar fechada num momento espiritual, mas porque acreditamos que ela foi feita para entrar na vida que já tens: na casa, no casamento, nos filhos, no trabalho, nas pequenas decisões, nos dias em que ninguém aplaude.
Levanta-te, também hoje
Talvez hoje o teu dia não tenha nada de extraordinário. Talvez seja apenas mais uma segunda-feira, ou uma terça, ou uma tarde qualquer em que tens demasiado para fazer. Mesmo aí, continua a ouvir estas duas palavras.
Talitha Cumi. Levanta-te. Não para viver uma vida diferente, mas para viver esta, sabendo que Deus já está nela.
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